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Este Natal, como já repararam, virei-me para os musicais. Sobretudo os que fazem parte da minha infância e adolescência. Hoje acredito que só as crianças até aos 5, 6 anos achem piada a estas histórias, afinal não têm personagens assustadoras nem se destroem objectos de forma espectacular. Mas é um engano pensar que O Feiticeiro de Oz, por exemplo, não é assustador e violento, de uma forma muito subtil. Foi assim, pelo menos, que o senti quando o vi a preto e branco na televisão. E quando o revi a cores, já adulta, a sensação desconfortável permaneceu.

 

Eis um musical cheio de mensagens, na velha tradição dos contos infantis: o bem e o mal, ultrapassar o medo, enfrentar os desafios. Há uma fada madrinha e uma bruxa má, um feiticeiro que todos temem, e até três personagens que representam, cada uma delas, uma qualidade, embora cada uma delas ande à procura de uma outra qualidade: cérebro, coração e coragem. A rapariguinha revela-se muito corajosa, como provavelmente todas as crianças desejariam ser, e vai enfrentando com criatividade e determinação, os desafios desse caminho.

 

Interessante descobrir-se no final do caminho que, afinal, o feiticeiro que aterroriza a imaginação dos habitantes de Oz é apenas uma ilusão. Não deixa de ser significativo que as grandes ilusões sejam mantidas assim, pelo espectáculo da maquinaria do poder, como um grande circo, um grande palco, uma grande arena, muito barulho e ruído, tudo repetido maquinalmente. O Feiticciro de Oz dá o título ao musical, não se esqueçam.

 

 

 

 

 

E afinal as qualidades que os companheiros de aventuras da rapariguinha pedem ao Feiticeiro de Oz não lhes podem ser dadas por ninguém, têm de ser descobertas pelos próprios. Neste caso, cada um deles tem uma qualidade e todos juntos reúnem as qualidades necessárias, o poder está portanto em si próprios, não lhes vem do exterior.

 

A mensagem que aqui deixo hoje é: podemos escolher entre deixarmo-nos embalar pela ilusão, a falsa esperança, os sorrisos de plástico da publicidade, as vozes maviosas de circunstância, ou procurarmos a realidade por trás desses painéis, das luzes e do ruído, a vida real, as pessoas reais, as emoções e os sentimentos genuínos. Escolher entre negar o medo, ou encará-lo de frente. Escolher entre admirar os falsos ídolos ou ter a coragem de aceitar a nossa fragilidade. E descobrir que afinal o poder está em cada um de nós e na nossa capacidade de nos juntamos por objectivos comuns. Não é esse um dos significados do Natal?

 

 

 

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publicado às 20:16

As minhas heroínas: Joanne Woodward, a mulher misteriosa

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.13

Depois dos meus heróis, Fredrich March, Robert Preston e o esboço para William Holden, faltavam as minhas heroínas. As actrizes-personagens que me fascinaram. 

Para começar, aqui vai Joanne Woodward, a mulher misteriosa. Misteriosa não no sentido de esconder um segredo ou de ser perita em jogos de sedução mas porque, sem se aperceber sequer, guarda em si imensas possibilidades: inteligência, paixões, afectos, sonhos.

Aqui a navegar neste rio estão dois filmes: The Long Hot Summer e Rachel, Rachel...

 

 

 Joanne Woodward é uma actriz que absorve e transmite a complexidade das personagens, como neste desafio, as três máscaras de Eve, fabulosa personagem e impressionante interpretação.

 

 

A sua voz altera-se do aveludado ao acutilante. Dir-se-ia da sua firmeza na postura e nos gestos que se trata de teimosia ou rigidez, mas em Rachel Rachel vemos a maior vulnerabilidade, a solidão e a depressão de uma professora que vive com a mãe numa pequena cidade do interior. Uma verdadeira obra-prima de Paul Newman, elaborada com a simplicidade só conseguida por uma grande sensibilidade.

 

Joanne Woodward e Paul Newman aparecem inseparáveis neste rio. Paul Newman filmou-a como mais ninguém, nesses anos em que o cinema parecia experimental, livre, solto, com a frescura de todos os inícios. São talvez dos poucos actores/realizador que escapam ao padrão cultural da época. Os seus filmes não nos surgem datados, surgem-nos surpreendentemente actuais. Digamos que acompanham as grandes mudanças culturais da época: as inseguranças, as fragilidades, os falhanços, os desencantos, os divórcios. A linguagem é a da realidade. Mas a perspectiva dessa realidade é poética, sensível, compreensiva. O olhar é o olhar de um adulto que enfrenta os desafios. Como no filme, Winning (1969) que nos revela a maturidade de uma época que é referida como irresponsável e de excessos mas que foi talvez a mais verdadeira e corajosa a olhar-se no espelho.

 

 

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publicado às 01:16

Rossellini e o vulcão como metáfora cinematográfica

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.04.10

 

Ultimamente dou comigo a ver filmes italianos e franceses actuais, europeus digamos assim. Não incluo os filmes ingleses nesta categoria de filmes europeus, pois a sua concepção lembra-me muito a construção dos argumentos americanos e actualmente, dos ingleses, prefiro as séries televisivas históricas. Agora estou mais virada para o cinema europeu do sul. Cinema italiano, francês, espanhol...

O cinema inglês foi, para mim, Powell e Pressburger, Hitchcock e David Lean. Embora um ou outro filme actual ainda mexa comigo, essa foi a minha época preferida. Depois houve um tempo em que via filmes suecos (Bergman) e nórdicos em geral... mas agora estou mais sulista talvez...

 

A Europa cultural está muito para além de lugares cinematográficos, exotismo de um passado ainda presente, turismo histórico, etc. A Europa cultural ainda existe, é preciso não deixar que o processo de erosão actual a consiga destruir. E só por isso já valia a pena ver alguns filmes actuais. Não propriamente pela linguagem específica do cinema, porque aí os especialistas são os americanos. Desconheço o cinema actual do oriente, Japão, Índia, China, Coreia, etc., mas dizem-me que há imenso a descobrir, autênticas revelações. Não duvido. Mas tenho de me concentrar nalgum ponto e nalguma motivação, e agora é a Europa que ocupa os meus neurónios e o meu coração. Perceber quem somos e para onde nos estão a querer levar, arte incluída, sendo a arte comunicação connosco próprios, com os que nos rodeiam e com o mundo.  

 

O impacto que o cinema europeu teve na minha pessoa foi gradual, insinuou-se. Na infância e pré-adolescência não fui imune à terrível poesia e romantismo da língua francesa, por exemplo. Na televisão passavam séries de cavaleiros com nomes românticos, Le Chevalier de la Tempête, não acham incrível? Sim, que adolescente ficaria imune? Aqueles cavaleiros corajosos, sempre de espada pronta para defender a sua dama, os castelos sombrios e majestosos... ainda por cima andava a ler o Alexandre Dumas... Também passaram nessa altura séries inglesas de época que acompanhei com imenso interesse: Disraeli, Anna Karenina, Eu, Claudius... O teatro inglês, e o teatro filmado em geral, era muito valorizado.

 

Mas os meus primeiros filmes foram os musicais americanos na televisão a preto e branco, as comédias, as aventuras, a capa e espada, os piratas. Só mais tarde iria aprender a valorizar os diálogos, o seu incrível ritmo, a sua ironia. O mesmo para os filmes ingleses, o lado mental dos seus filmes, sóbrio e afectado.  

Entretanto descobri o cinema italiano, na comédia inicialmente, mas depois no neo-realismo. La Strada foi o que mais me impressionou. A música ajudou a fixar essa impressão. Mas houve outro filme, o Stromboli, esse vulcão activo nessa ilha atávica, visceral.

 

É dessa ilha e desse vulcão que gostaria de falar hoje. De uma aldeia de vida dura, de gente dura. E como uma mulher que escapara a um campo de concentração se vê ali enfiada, numa nova prisão, a da natureza violenta, a da solidão e isolamento.

O filme é quase um documentário, o que o torna incrivelmente realista. Vale a pena rever aquela escalada da mulher pela montanha, a nuvem que a envolve, o seu terrível cansaço. A natureza ainda lhe ensinará o essencial de si própria, mas porque ela quer viver. Por vezes é preciso enfrentar a morte, o fim de tudo, para poder respirar e viver.

 

O vulcão é uma metáfora, a meu ver, terrivelmente intensa e sensual. Os japoneses sabem-no pois explicam quase tudo o que lhes acontece a partir da natureza. E isto é possível porque a sua linguagem é essencialmente visual.

A natureza tem tudo para nos revelar sobre a nossa própria natureza. Rossellini mostra-nos isso da forma mais realista e poética possível. Ele que foi um dos realizadores que melhor conciliou realidade e poesia. Lembram-se da Viaggio in Italia? Desse outro vulcão, o Vesúvio, e das marcas da destruição que deixara atrás de si? Do impacto que essa viagem teve nessas duas criaturas a organizar as suas vidas no caminho quase inevitável do cinismo e da indiferença? E da ideia que fica da possibilidade de descoberta individual, do essencial, quando estamos ainda receptivos às revelações da natureza?

 

Um pequeno intervalo aqui, para recarregar as baterias...

 

 

Voltando ao cinema europeu, tenho para mim que a energia vital de filmes como estes do Rossellini só é possível com a autenticidade. E que esta autenticidade ainda é recuperável no cinema europeu, mas já não a vemos no cinema americano que se estereotipou por completo, salvo uma ou duas excepções. O próprio Wim Wenders, que se iniciou a filmar fascinado pela América cinematográfica, voltou à Europa original e os Anjos vêm daí, os sonhos de humanos vulneráveis, na procura de um sentido, de uma lógica para as suas existências... Vi ontem o seu Imagens de Palermo e fiquei impressionada. Onde é que ele poderia encontrar aquele percurso em aberto, aquela inquietação humana, frágil e humilde, na América? Só no território europeu, este continente tão velho, tão antigo, tão decadente e, no entanto, o único onde ainda é possível pôr tudo em causa sem qualquer estranheza, sem preconceitos nem alibis.

É isto que me motiva agora,  tentar vislumbrar a identidade cultural europeia, essa complexidade e essa autenticidade, essa ousadia de quem atravessou séculos e já viu tudo, de quem perdeu a inocência do olhar mas que está finalmente preparado para se render à sua verdadeira natureza. Finalmente, a verdade. Para a assumir é preciso coragem. Para se olhar nesse espelho. Wim Wenders revela-nos isso. Através do fotógrafo que deambula pelas ruas de Palermo e adormece nas ruas, de cansaço ou porque finalmente se rende...

 

 

 

 

 

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publicado às 20:15

 

Forrest Gump. Ultrapassar as limitações que a vida lhe trouxe. Aproveitar todas as oportunidades que lhe surgem. Enfrentar cada situação em que está metido, mesmo a mais adversa possível como a guerra do Vietname, pelo melhor ângulo: a lealdade, acima de tudo. Amar sem questionar nada, só por amar.

É inspirador, no mínimo.

É certo que o nosso herói tem uma mãe fora do comum. (1) Mas também é certo que ele já vem com essa marca registada, uma energia muito sua, que se orienta e depois se mantém nessa direcção. A sua bússula interior.

Foi assim com o primeiro e único amor. Que irá salvar a todo o lado, a todo o custo, mesmo contra a vontade dela!

Não há pedras suficientes, dirá ao vê-la um dia, desesperada, atirar pedras à casa agora vazia.

Foi assim com o amigo e companheiro no treino militar e depois no Vietname. Perderá o amigo naquela selva, mas trará outro às costas, mesmo contra a vontade do próprio! E como combinara com o amigo morto, irá dedicar-se à pesca do camarão.

 

O sucesso de Forrest Gump não é um puro acaso, como somos levados a pensar. O sucesso de Forrest Gump também não está na sua fortuna, surpreendentemente adquirida na pesca do camarão. O sucesso de Forrest Gump é ele mesmo! Uma raridade, em si mesmo. Uma inspiração.

Alguém à partida tão pouco talhado para a adaptação a um mundo áspero e competitivo, conseguir a autonomia e a vida familiar que Forrest construiu... Alguém que coloca o amor, a amizade, a lealdade, acima de tudo, conseguir conviver tão bem com um mundo cínico e desleal...

Zemeckis mostra aqui essa possibilidade.

 

Este é, para mim, o papel de Tom Hanks. (2)

A banda sonora, magnífica!

E os efeitos especiais, que incluíram sobreposições engenhosas com Forrest a inter-agir com personagens dos anos 60!

 

A parte mais hilariante: o pormenor da corrida de Forrest pelas estradas desertas, já seguido por uma multidão. Neste caso Forrest corre para apaziguar um desgosto. Um dia pára de repente, em plena estrada, deixando todos os que o seguem desorientados e confusos. É que a bússula tem de ser interior. Terão de a descobrir por si próprios.

 

É muito interessante a perspectiva do filme que fala da realidade de uma forma absolutamente original. É como se a perspectiva fosse mesmo essa: de que nos serve falar dos nossos abismos e desertos? O que interessa é a escalada e a travessia! Ultrapassar os condicionalismos, os obstáculos, os nossos medos, as nossas contradições. E a natureza humana, nisso, é exímia! Em situações-limite é capaz de se surpreender a si própria!

Também pode ser lido de um outro ângulo: as nossas vidas, por mais insípidas que sejam, já têm em si mesmas todos os ingredientes necessários, imensos mistérios por desvendar, abismos por escalar, desertos por atravessar.

Forrest Gump também nos mostra que a natureza humana procura, instintivamente, a sua sobrevivência, salvar a pele. É para escapar à violência de matulões agressivos que Forrest começa a correr. A partir daí, ninguém mais o pára. Corre no campo de futebol. Corre em plena selva no Vietname. E corre estrada fora.

É também esta ideia essencial da acção: perante uma situação, age, segue o seu instinto. Também é engraçado pensar que foram as adversidades que lhe deram o primeiro empurrão.

 

 

 

(1)  O olhar da mãe que o aceita tal como é, que vê as suas qualidades e potencialidades, que não o reduz e limita. A mãe é a primeira a instilar nele a ideia das possibilidades. Perante uma situação, o que se pode fazer?

(2)  E também o papel de Gary Sinise.

 

 

 

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publicado às 17:23

Mr. Smith Goes to Washington

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.11.07

Os melhores filmes dos anos 30 e 40 passaram na RTP nos anos 60, 70 e, mais tarde, em vários ciclos na RTP2. O que aconteceu entretanto para nada voltar a ser como dantes?

Frank Capra passa agora apenas no Natal: It's a Wonderful Life

Criticado como um idealista, Capra é muito mais do que um idealista. E ser idealista é ser menor? A meu ver, ter um ideal é fundamental. Apontar para uma qualquer existência com qualidade para todos, é fundamental. Defender a dignidade de cada indivíduo, é fundamental. Lembrar valores como autenticidade, maturidade, responsabilidade, autonomia, amizade, lealdade, é fundamental.

Mr. Smith Goes to Washington revela precisamente o choque de um idealista com a realidade do poder. Capra dá a volta à situação. E se… bastasse um idealista para desmontar negócios pouco claros, jogos de interesses? Se bastasse um idealista para devolver os valores autênticos àquele espaço nobre, o Congresso?

Capra desmonta a realidade social e ao fazê-lo de uma forma suave ou romântica, isso não lhe retira a eficácia. A mensagem passa.

A montagem das cenas, a gestão do tempo, a utilização do guião, são perfeitas. Nem pesada, nem leve demais, nem apressada, nem lenta. E isso é de génio. Onde é que voltámos a ter aqueles diálogos em cinema?

Capra dá ao indivíduo uma dimensão significativa na comunidade. O indivíduo pode resistir a ser diluído ou mesmo triturado pela comunidade, pelo grupo, pelo poder. Ele tem um lugar. Ele existe. Há um equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade. Apoiam-se mutuamente. Para Capra isso é possível. E nós também desejamos que assim seja.

 

 

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publicado às 12:08


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